A realidade da mulher brasileira: crise do capital, aumento das violências e direitos minados em tempos de guerra.
- NecTrama

- 7 de mar.
- 13 min de leitura

Apresentação
Neste 8 de março, dia da luta da mulher trabalhadora, nós da Rede Trama apresentamos o texto manifesto de autoria de Marília Duarte Souza, professora, ativista feminista e integrante da Rede.
No texto “A realidade da mulher brasileira: crise do capital, aumento das violências e direitos minados em tempos de guerra” Marília indica que, em contextos de crises do capital, as trabalhadoras são as mais afetadas, pois o capital se reinventa para seguir a explorar as forças de trabalho inseridas na produção de valor diretamente ou indiretamente. A opressão da mulher, nestes momentos, é acionada em dois sentidos. Primeiro, com a responsabilização das mulheres na esfera reprodutiva, criando a falsa ideia de que as mulheres têm uma “capacidade” natural de atuar em determinados setores. O outro movimento do capital é alimentar as disputas intra-classe, o que gera uma diminuição do valor da força de trabalho, expressa na queda dos salários de trabalhadores e trabalhadoras. E o salário das mulheres é afetado de forma ainda mais intensa, visto que já são os mais defasados.
Esse movimento tem sido alimentado por políticas públicas que reforçaram o suposto papel da mulher. À guisa de exemplo, o famigerado “Programa Criança Feliz” que fortalece o papel da família enquanto o lugar de cuidado e reprodução da força de trabalho, desresponsabilizando o Estado por políticas públicas que atendam as necessidades imediatas da classe trabalhadora.
Na prática, com a falta de políticas públicas voltadas à autonomia da mulher, verificamos um movimento de defesa do fortalecimento da instituição familiar intensificando a divisão sexual do trabalho, expressa no aumento da carga de trabalho reprodutivo realizada pelas mulheres que dedicam, em média, 10 horas a mais por semana às atividades domésticas e de cuidado quando comparadas aos homens.
E como se não bastasse, reforçar essa divisão sexual do trabalho é também reforçar a falsa ideia da mulher como propriedade do homem, recrudescendo o imaginário da mulher como serva da família e “natural” escrava do lar sobre a qual pode recair todos os tipos de violência. Não à toa presenciamos o feminicídio como uma epidemia, nos revelam os números da violência contra a mulher apresentados no texto de Marília.
Mas isso não vai nos calar, pois como nos disse nossa camarada Rosa Luxemburgo, citada por Marília, continuaremos lutando “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. Enquanto houver um modo de produção que necessita da opressão para atingir os objetivos do enriquecimento de alguns, seguiremos lutando…
As reflexões feministas marxistas trazidas por Marília em seu texto são contribuições para essa luta das mulheres, para a nossa luta. Uma luta que não é só das mulheres, por mulheres e para mulheres, porque necessita ser uma luta por uma real emancipação humana.
E nunca é demais lembrar que luta contra a violência às mulheres é uma luta de todos e todas por relações humanas humanizadas!
Com o texto de Marília, a Rede-TraMa reforça seu posicionamento nessa luta. O lugar de unidade nas lutas da classe trabalhadora para o combate ao capital!
Boa leitura e nos encontramos nas ruas nesse 8M!
Laura Marques (Mestranda PPGA/UFMG, Nec-TraMa)
Nicole Martins (Bacharela em Terapia Ocupacional/UFMG, Nec-TraMa)
Deise Luiza Ferraz (Professora FACE/UFMG, Nec-TraMa)
A realidade da mulher brasileira: crise do capital, aumento das violências e direitos minados em tempos de guerra
Iniciamos o ano de 2026 com notícias avassaladoras, que escancaram a realidade de intensificação da violência contra a mulher que, conforme os dados nos mostram, atingiram seu ápice no último ano - . Mulheres trabalhadoras mortas por seus
colegas no ambiente de trabalho, nas suas casas por companheiros, familiares, violentadas nas ruas, pelo Estado. Tal realidade, ainda que arrebatadora, não é inesperada diante da dinâmica do capital. Simone de Beauvoir nos disse uma vez: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados". Enquanto feministas marxistas afirmamos: essa relação não é coincidência ou acaso, e é justamente por isso que reafirmamos: apreender as particularidades da determinação de relação de opressão à mulher na sociabilidade capitalista é uma missão imprescindível para a luta das mulheres. Discutimos que, a opressão à mulher não surge na sociabilidade capitalista nem, tampouco, se articula da mesma forma ao decorrer das transformações nas formas históricas de produção da vida. Mas então, qual a determinação dessa relação na forma histórica particular marcada pela apropriação privada dos meios de produção e exploração da força de trabalho? Como tal determinação se articula com a relação de opressão e o movimento de violência contra à mulher no Brasil?
Conforme afirma Souza (2024) “A propriedade privada dos meios de produção, ao lançar para fora da unidade familiar (e para dentro do processo de valorização do valor) a produção dos meios necessários à reprodução da vida no seio de uma sociedade patriarcal, engendrou as bases de uma nova submissão da mulher ao lhe incumbir a tarefa social de reprodução da mercadoria força de trabalho. Assim, a propriedade privada dos meios de produção, enquanto produto histórico do trabalho alienado, constitui-se no interior de condições objetivas específicas de relações de opressão da mulher (o patriarcado feudal, fundado na produção de bens no interior da unidade familiar, no qual o homem tinha plenos poderes de comando) e, ao mesmo tempo em que supera tais condições objetivas, engendra novas condições objetivas (fundando a produção de mercadorias fora da unidade familiar) que necessitam da manutenção da opressão, em especial, devido à necessidade de atividades vinculadas à reprodução da força de trabalho, ainda que com novas formas e contornos, um patriarcado especificamente capitalista”
Assim, consideramos que a opressão à mulher no capitalismo é determinada pela relação de divisão sexual do trabalho subsumida ao processo de produção e valorização do valor, Nesse sentido, variações na forma e intensidade dessa relação são verificadas em função das necessidades assumidas pelo capital em distintos contextos históricos e do momento em que se encontra a acumulação capitalista, mediada pelo próprio movimento de tensionamento decorrente da luta de classes (Saffioti, 1976), o que se expressa em um movimento não linear de avanço na alteração da realidade de subjugação das mulheres, mas um movimento contraditório de avanços e retrocessos. E qual o momento de acumulação do capital vivenciamos?
Vivenciamos um momento de crise do capital, o qual é, como Marx (2017) já nos colocou no livro III D’o Capital, expressão da contradição do próprio movimento do capital. Mas como assim?
Por um lado verificamos o desenvolvimento acelerado da tecnologia que permite o incremento da força produtiva do trabalho, e necessidade de menor força de trabalho, trabalho vivo, nós, seres humanos, trabalhadoras e trabalhadores no processo de trabalho. Mas qual a única mercadoria inserida no processo de trabalho que tem a capacidade de produzir valor, e não apenas transferir? A mercadoria força de trabalho. Nesse sentido, por outro, menos trabalho vivo no processo total, menos força de trabalho, significa menos produção de valor, de mais-valor em relação ao capital total investido– o que de forma bem simplificada se expressa no que Marx chama de queda tendencial da taxa de lucro.
Nesse sentido, para manter sua universalidade diante das crises, a produção e acumulação do valor, o capitalismo precisa de saídas, se reinventar... como podemos explorar mais as forças de trabalho que estão inseridas no processo de produção do valor?
Esse processo se expressa de distintas formas, no empreendedorismo, no processo de plataformização do trabalho, no recuo do Estado frente ao fundo disponibilizado a classe trabalhadora... mas aqui, nesse processo, as relações de opressão em geral, e a opressão da mulher em particular possuem uma necessidade essencial.
Vejamos: consideremos que, em momentos de crise, os quais se colocam enquanto integrantes da própria dinâmica do Capital, se coloca a necessidade de intensificação da exploração, certo? Esse rebaixamento pode ser realizado aumentando o tempo de trabalho em que o trabalhador trabalha produzindo valor, o que se expressa nas escancaradas jornadas de trabalho aumentadas de 10,12,14 horas, escalas 6x1, ou até 7x0 de trabalhadoras e trabalhadores cada vez mais precarizadas e precarizados – o que é impulsionado pelo processo de plataformização do trabalho e “empreendedorismo” – que disfarçam a precarização e intensificação da exploração sob a ideia de “chefes de si mesmos”, “empreendedores” e “flexibilidade” – “trabalho a hora que quero” (mas se quero comer e pagar as contas, ter o mínimo para me reproduzir apenas enquanto força de trabalho, preciso trabalhar pelo menos 12 horas por dia).
E também nos trabalhos análogos à escravidão (disfarçados por redução de pena e “reinserção na sociedade” - como Fernandes (2023) demonstra - ou escancarados, “denunciados”, mas ignorados (como diversas grandes marcas já foram denunciadas várias vezes). Por outro lado, esse valor pode ser rebaixado, reduzindo o tempo de trabalho necessário para a reprodução do trabalhador, trabalhadora, que é pago pelo capital, e se expressa nos salários.
E aqui, a intensificação das relações de opressão em geral e da opressão à mulher em particular, pode ser um aspecto acionado pelo sistema capitalista para auxiliar nesse movimento em pelo menos dois aspectos:
Por um lado, a responsabilização das mulheres pela esfera reprodutiva e dos homens, pela esfera produtiva, possibilitam ao capital uma maior capacidade de manobra da força de trabalho feminina, ou seja, permite que o capital mobilize tal força de trabalho a depender das necessidades do processo de acumulação. Então vejamos, já repararam que a suposta “capacidade” das mulheres de atuar em determinados setores, de realizar determinadas atividades, se modificam, “magicamente”, ao decorrer da história – e se analisarmos bem, ao decorrer do movimento do capital? – Guerras, crises, expansão, retração.. Isso não é mera coincidência, acaso ou uma relação simples causa-efeito.
Temos que o movimento de crise produz, ao passo que demanda a expansão do exército industrial de reserva, uma vez que o movimento de expansão e contração de tal exército se relaciona à intensificação-abrandamento da concorrência intra-classe trabalhadora atuando no aumento ou diminuição do valor da força de trabalho, o que se expressa no movimento dos salários. Como podemos verificar a redução, em geral dos salários da classe trabalhadora na última década (marcada pela última grande crise do capital) - os homens trabalhadores que tinham uma remuneração média de 4,3 salários mínimos em 2012, obtiveram um rendimento médio de 2,6 salários mínimos em 2024, já as mulheres trabalhadoras passaram de um rendimento de 3,1 salários mínimos em 2012, para 2,1 em 2024.
E aqui é importante pensar nos dois momentos desse movimento. Por um lado, em momentos de crise, a retração da força de trabalho feminina (e aqui pensar em outros extratos da classe trabalhadora submetidos à formas de opressão) atua no expansão do exército industrial de reserva que, em última instância, atua na diminuição do valor da força de trabalho que é repassada aos trabalhadores em forma de salários. Então o que verificamos na última década é, não apenas um aumento da taxa de desocupação, um aumento do exército industrial de reserva, mas também a redução dos salários dos/das trabalhadores/ras ocupados, como verificamos. Por outro, em momentos em que verificamos a maior absorção dessa força de trabalho, o valor mais baixo da força de trabalho das mulheres e de outros extratos da classe trabalhadora submetidos à opressão, impulsiona o movimento do rebaixamento geral do valor da força de trabalho de toda a classe. Verificamos isso, por exemplo, quando no processo de industrialização e inserção de mulheres e crianças nas plantas fabris, os trabalhadores homens se revoltaram contra as mulheres porque seus salários estavam abaixando.
O processo de divisão sexual do trabalho no capitalismo, ao produzir o trabalho de reprodução da mercadoria força de trabalho enquanto responsabilidade das mulheres e fazer com que grande parte dessas atividades seja realizada historicamente de forma gratuita pelas mulheres trabalhadoras para a própria classe trabalhadora, em última instância rebaixa o valor da força de trabalho que, em última instância, se torna mais barata para o capitalista. Nesse sentido, para além da necessidade de aumento do exército industrial enquanto mecanismo de rebaixamento do valor da força de trabalho, a maior demanda de trabalho reprodutivo engendra uma maior disponibilidade das mulheres trabalhadoras para realizar tais atividades de forma gratuita para a classe trabalhadora. Isso deve ser analisado de forma engendrada ao movimento de recuo do Estado no provimento para a classe trabalhadora
Assim, ao passo em que verificamos o aumento da taxa de desocupação das mulheres trabalhadoras e intensificação da atuação no trabalho reprodutivo no espaço privado da família, verificamos uma retração da atuação do estado no provimento de políticas relacionadas à reprodução da classe trabalhadora. Ao passo que verificamos um crescimento do tempo de trabalho das mulheres dedicadas às atividades domésticas e de cuidado, verificamos um desinvestimento total em educação infantil, e em creches (o valor destinado à implementação de novas creches chegou a ser zerado no ano de 2017).
Para além do desinvestimento financeiro, verificamos uma reorientação dos conteúdos das políticas públicas destinadas às atividades de cuidado e reprodução. Um exemplo que eu sempre coloco é o “Programa Criança Feliz”. O programa Criança Feliz, é um exemplo nítido de como o conteúdo das políticas públicas se voltam para reforçar o papel da família enquanto locus principal de cuidado e reprodução da força de trabalho. “O cuidado” é reforçado como “constituinte do aprendizado nas famílias” e naturalizado como algo que deve ser compreendido na “sutileza das interações humanas”. “O cuidador” - melhor dizermos A cuidadorA, não é mesmo? - aquela que “comunica, dá afeto, protege”, e a “A família”, é considerada a “cuidadora primária da família”. Ao reforçar o papel da família enquanto cuidadora primária da família, e descolar o papel do Estado para a família, para quem estamos deslocando esse cuidado, afinal? Para o ombro das mulheres trabalhadoras, que dedicam cerca de 10 horas a mais por semana em tais tarefas em relação aos homens. As mulheres negras, dedicam ainda cerca de 3 horas a mais que as mulheres brancas (IBGE - PNAD Contínua, 2024).
Em suma, no mesmo movimento que observamos um recuo do Estado no provimento de políticas públicas direcionadas para a autonomia econômica e social da mulher, desinvestimento em instituições que buscam promover atividades de educação e cuidado, como escolas e creches, e o direcionamento das políticas para um fortalecimento do repasse das atividades reprodutivas para a instância da família, portanto, verificamos um fortalecimento da instituição familiar e da divisão sexual do trabalho, expressa na aumento da carga de trabalho reprodutivo realizada pelas mulheres.
E aqui, gente, tem um outro ponto muito importante. Todo esse movimento de intensificação da divisão sexual do trabalho, demandada pela necessidade de intensificação da exploração da força de trabalho em momentos de crise do capital é reforçado e impulsionado por um movimento que, também não é mero acaso, destino ou relação de simples causa efeito – a intensificação do que se convencionou chamar “moral conservadora”.
Isso está, infelizmente, escancarado para nós das mais variadas formas: no conteúdo das políticas, como acabamos de ver, no conteúdo dos diversos projetos de lei que vão e voltam buscando cada vez mais criminalizar a mulher por tudo, inclusive por ser violentada, como vimos nos últimos debates com tentativas de criminalizar o aborto mesmo em casos de gravidez proveniente de estupro. E se expressa, da forma mais cabal, nos dados doloridos do aumento alarmante das diversas formas da violência contra a mulher no Brasil e no mundo. Trazendo para o Brasil, temos que em 2025 foram registrados 1568 feminicídios, crescimento de 4,7% em relação à 2024, o maior registro desde que foi instituída a lei do feminicídio em 2015. Ao analisar as diferentes formas de violência, é evidente que ela não se restringe apenas à violência física. Em pesquisa nacional publicada em novembro de 2025 pelo Instituto Data Senado, 88% das mulheres relatam ter sofrido violência psicológica, 81% relataram violência física, 30% violência sexual, 81% moral e 40%, violência patrimonial. Tais números apontam que a predominância das agressões, sejam elas de qualquer tipo, impactam a vida cotidiana da mulher no Brasil, além de naturalizadas nas relações sociais.
E bom, mais uma vez, vamos pensar de forma mais atenta para esses dados. Falamos que, as mulheres trabalhadoras: várias perderam empregos, as que se mantiveram empregadas, várias tiveram pioras significativas nos salários. Estamos falando que, a maioria das mulheres trabalhadoras se encontram em condições de “vulnerabilidade” no Brasil. 37,1% das mulheres brancas viviam, em 2024, em condições de vulnerabilidade (em domicílios com até ½ salário mínimo per capita) e 23% em domicílios com até ¼ de salário mínimo per capita. A situação é ainda pior para as mulheres trabalhadoras negras, 75% viviam em domicílios com renda de até ½ salário mínimo per capita, e 46,7 em domícilios com até ¼ de salário mínimo per capita.
Por outro lado, os dados mostram que a maioria das mulheres violentadas, sofrem a violência no ambiente doméstico: por seus parceiros, ex-parceiros, pais e filhos. Em 2025, 59,4% das mulheres vítimas de feminicídio foram mortas por seus companheiros, 21,3% por ex-companheiros e 10,2% por outros familiares.
Estamos enfim dizendo, que grande parte dessas mulheres não tem condições concretas de deixar o ciclo de violência. Estamos falando que dentre as mulheres, as mulheres negras possuem ainda mais dificuldade. Talvez tivessem, se houvesse investimento em políticas de acolhimento às mulheres vítimas de violência, mas infelizmente essa não é a realidade no Brasil. Não falamos que houve um gigante retrocesso do Estado no provimento de políticas destinadas à reprodução e cuidado? Pois não foi diferente no que tange ao investimento em políticas de enfrentamento à violência e construção das Casas das Mulheres, destinadas a abrigar mulheres vítimas de violência. O orçamento destinado à políticas de igualdade e enfrentamento à violência contra a mulher foram zeradas em 2019 e 2020, e no que tange ao orçamento destinado à construção de Casas da Mulher Brasileira e centros de atendimento à mulher, apenas 0,2% do autorizado foi realmente liquidado (IPEA, 2021).
Para além do investimento, vimos como os conteúdos das políticas foram alterados, vimos como a “moral” vem atuando no âmbito do Estado – o que também se revela ainda mais devastador para as mulheres negras, quem são mais descredibilizadas em casos de denúncias de violência, em especial violência sexual (FSPB, 2025). Infelizmente, então, não é de espantar, diante de todos esses aspectos, que o número de feminicídios tenha sido o maior em 2025 em 13 anos. Que todas as formas de violência contra as meninas e mulheres tenha aumentado significativamente no último ano. Que dentre as mulheres, as mulheres negras sejam as que mais morrem (62,3%), as que mais são violentadas.
E por isso, retorno ao apontamento do início, para perguntar, entendem porque “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados"? Entendem por que nós, feministas marxistas insistimos em afirmar: não é possível uma real libertação da mulher sem a destruição do capital? Mas também, camaradas, homens trabalhadores, entendem que não há uma real emancipação humana, da classe trabalhadora, sem a destruição da opressão à mulher?
Então, fazemos um chamado:
É preciso lutar contra as distintas formas de violência contra a mulher no capitalismo, até porque precisamos estar vivas para conseguir lutar. Mas não apenas.
É preciso lutar por acesso à educação, pois qualificar nossa força de trabalho pode nos possibilitar melhores condições de venda da única mercadoria que nos resta vender, para nos mantermos vivas. Mas não apenas.
É preciso lutar por melhores condições de venda da nossa mercadoria, força de trabalho e, assim, melhores condições de inserção e manutenção no mercado de trabalho, pois no capitalismo é só por meio dela que podemos suprir nossas necessidades. Mas não apenas.
É preciso lutar por melhores condições de inserção nas distintas esferas sociais, inclusive na política, pois precisamos estar inseridas para que possamos, por meio da luta prática, alterar inclusive a moral que reforça nossa posição de submissão na sociedade de classes.
É preciso lutar, por isso, contra essa moral que é utilizada para justificar as distintas formas de violência praticadas contra nós. Mas não apenas.
É preciso lutar por uma sociabilidade na qual possamos nos produzir e reproduzir enquanto seres humanos, não apenas trabalhadoras. Por uma sociedade na qual a atividade que nos torna humanas, o trabalho, não seja fonte de desumanização.
É preciso lutar por uma sociedade na qual a produção e reprodução da vida não produza relações de opressão, e não produza, assim, uma moral que reforce essa relação.
E assim continuaremos lutando. Enquanto houver opressão, seguiremos lutando...
“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” como nos disse nossa camarada Rosa Luxemburgo.
Homens trabalhadores, camaradas, essa luta não é apenas nossa. Essa luta é de vocês. Essa luta é da classe trabalhadora.
Referências
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (2023) - Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. (2025). Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil.
IPEA (2022) - Políticas Sociais: Acompanhamento e Análise
Marx, K. (2017). O capital: Crítica da economia política. Livro III: O processo global de produção capitalista Trad. de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo.
SAFFIOTI, H. I. B. (1976). A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. 3. Ed. São Paulo: Vozes.
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