• Janaynna Ferraz

O microscópico, o invisível e o sólido que se desmancha no ar

Atualizado: 5 de Mai de 2020


Depois de um mês de postagens diárias com reflexões pontuais sobre a relação entre o Covid-19 (Desventuras em Série: Coronovírus) e o capitalismo hodierno, senti a necessidade de alterar a forma de compartilhar a apreensão do movimento ideal da reprodução do real, isto é, o meio pelo qual consigo capturar o que está acontecendo diante de tantas informações. Vou começar com três elementos: o microscópico, o invisível e o sólido.

Foto: Deise Luiza


O vírus é o microscópico. Ele não pode ser visto a olho nu, apenas por aparelhos específicos para esse fim. Essa coisinha medonha que a gente certamente já viu alguma foto na tevê ou na internet, e que quando entra faz uma bagunça danada no nosso corpo e na vida de muita gente. O microscópico foi e tem sido investigado cientificamente, e mesmo com todas as limitações de uma ciência comprometida com o capital, é com as orientações dos cientistas (epidemiologistas, estatísticos, químicos, farmacêuticos, entre tantos outros), que temos conseguido avançar sobre prevenção (EPI, isolamento social e higiene, busca de vacinas) e tratamento / cura (protocolos). O microscópico, portanto, não é, em si, o nosso maior problema, embora seja imenso. Mas esse vírus, que só é visto por lentes potentes, tem nos ajudado a compreender alguns fatos que já existiam na nossa vida.


E é ai que entra o invisível. Não, não é o vírus. É impossível falarmos, sobretudo nos tempos atuais, de qualquer assunto sem a presença (explícita ou subentendida) da internet. O invisível é o digital. E como ouvi essa semana em uma live (o invisível não descansa e o poder não deixa vácuo) de uma poderosa capitalista proprietária de uma rede de varejo, “o digital não é uma plataforma, é uma linguagem.” O invisível é o digital que é uma linguagem. E qual o papel da linguagem? É um meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais etc.


A questão central, no entanto, não é o digital enquanto tecnologia, a questão é que, enquanto uma linguagem, seu papel é levar ideias e sentimentos, que nestes tempos não são outros se não: o fim é lucro (salvem a economia) a vida é meio pelo qual o fim se realiza. Não se trata de uma falsa dicotomia, trata-se de uma contradição imanente da produção mercantilizada da existência: o lucro vem primeiro, mas sem vida, não tem lucro.


Assim o invisível, sem a gente se dar conta, entrou nas nossas conversas, na nossa família, no nosso trabalho, sorrateiro como ele, aproveitou-se que estávamos todos assustados com o microscópico para se instalar de vez nas nossas vidas. O Home office, o EAD, as inúmeras lives, o WhatsApp, as fakes News...O invisível chegou para ficar, pois se antes essas atividades eram acessórias, agora que perceberam que podem ser um meio de ampliar as jornadas de trabalho, substituir trabalhadores por robôs, padronizar os pensamentos, aulas, serviços, enfim, reduzir a “qualidade humana” pela escala da manufatura, agora elas são indispensáveis.


A contaminação a qual somos expostos pelo invisível manifesta-se na forma como os assuntos que se tornam tão assíduos na nossa vida diária, pois os temas são pautados por alguns pequenos grupos, cada um deles em suas próprias bolhas e nós acabamos entrando na redoma sem perceber. Em geral, duas grandes narrativas opostas são criadas, discutidas apaixonadamente por um ou dois dias, até que se cria uma nova “notícia / opiniões / análises / lives” e o ciclo recomeça. É claro que existem ideias originais, mas elas não vão muito longe, porque o invisível não deixa, é o tal do algoritmo. Por isso, aquilo que a gente produz termina sendo visto por nossos pares, rechaçados pelos opositores e assim nada muda. O invisível tem o poder de criar a narrativa e faz isso para apoiar suas ações em outra dimensão, uma bem visível, a vida real, e a vida real é o sólido.


O invisível faz o movimento oposto do “sólido que se desmancha no ar”, quando suas partículas (em suas narrativas criadas na mídia, no Trending Topic do Twiiter, na palestra EAD - live da capitalista já citada - louvando a “flexibilização” das leis trabalhistas etc.) tornam-se o meio pelo qual os ataques à classe trabalhadora se materializam. Os grupos organizados fazem carreata, vilipendiam tudo o que podem, pautam as disputas políticas e assumem o protagonismo da luta. Quando as partículas se juntam novamente na forma sólida, ela muda (e neste caso para pior), a nossa vida real, por isso é sólida.


O que o invisível não deixa a gente perceber é que o sólido (o mundo real) se transforma em “engajamento nas redes sociais” para conseguir se realizar. Não o contrário disso, como uma parte da militância cibernética que nos leva a crer. Então, o que temos hoje é uma relação complexa e poderosa entre o mundo real e o mundo virtual, cuja preponderância está no primeiro, e o segundo é um fator desequilibrante na medida em que reforça os ataques a luta.


Por isso, ainda que o microscópico nos acometa e mesmo que o invisível tente nos limitar, é no mundo real, o sólido, que sentimos as dores, a fome, a ansiedade, a tristeza, a revolta. E é no mundo real que precisamos furar a bolha, e isso implica encarar a ameaça do microscópico e exigir todos os cuidados de saúde que o mundo tem a oferecer. Implica ainda em não se dobrar à linguagem da exploração ampliada pelo digital. O invisível se torna potente ao encontrar seu correspondente no mundo real. O que temos feito de sólido? Porque o sólido só pode ser enfrentado no mundo real e isso requer organização, força, valentia e coragem para revolucionar.

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