• Janaynna Ferraz

Caça ao Fantasma do Comunismo

Atualizado: Abr 14


Livros - por Rodchenko e Stepanova. Foto por Janna Ferraz, Montevideo, nov. 2017.

Esta semana a hashtag #BrastempApoiaoComunismo virou um trend topic do Twitter e me deixou circunspecta. Como comunista me senti ofendida, mas quem já se viu?!, qualquer “pessoa física” ou “jurídica” que contrarie o grupo dominante no Governo é comunista! Só quem já se fez comunista que sabe como é duro viver em contradição, ter nascido e crescido em mundo capitalista e começar a entender que essa forma de organização social é incapaz de proporcionar a liberdade que professa. E a gente, ao invés de se indignar e rechaçar com essa esculhambação do comunismo, faz piada. Veja, não estou negando o caráter formativo do humor. O problema está em que “ser comunista” se torna uma banalidade, uma negatividade frente à direita, mas também à esquerda.


Do lado da socialdemocracia, das esquerdas de um modo amplo, há um esforço de se separar da pecha de comunista. “Não é porque sou contra o governo que sou comunista.” Ou “Lutar para reduzir as desigualdades não é ser comunista”. Ele(a)s têm razão! E fazem questão de delimitar


isso. Em outras palavras, o que eles defendem é que o capitalismo, sob a batuta de um grupo honesto e bem-intencionado, poderia ser um bom lugar para se viver. Entretanto, e infelizmente, o exame histórico das últimas 4 décadas, que culminou com o atual estágio e mais a pandemia, demonstram que o capitalismo não é domesticável, pois seu combustível é exatamente a produção da desigualdade e para isso é necessária uma gestão da organização social condizente com o desenvolvimento das forças produtivas que, ora são mais, ora são menos expropriadoras.


Contudo, ser menos explorado (uma pro


dução que gere menos desigualdade) não é a mesma coisa que NÃO ser explorado, menos desigualdade não é a mesma coisa que igualdade. E igualdade não é a mesma coisa de liberdade individual. Para boa parte das esquerdas, é tolerável um mundo menos desigual. Assumir, portanto, uma menor desigualdade implica em aceitar que tem gente que vai viver com muito-pouco enquanto também tem gente que vai viver com muito-muito. Se isso não é obra da natureza, nem castigo divino, essa desigualdade só pode ser ação humana. E sendo ação humana, é produto das nossa


s ações no mundo e igualmente da nossa consciência. É por isso que ser comunista não é algo banal.


No século XIX, o partido comunista alemão elaborou um Manifesto para deixar claro quais as intenções do(a)s comunistas. Precisaram fazer isso, além da intenção evidente de apresentar um projeto de partido, pois era necessário combater um movimento semelhante ao que acontece hoje: Tudo e todos que fossem contra o grupo dominante era comunista.


O Manifesto do Partido Comunista começa com “um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo”. Essa frase é bastante conhecida, mas para nossa desventura (e dos seus autores) o livro-panfleto de 40 páginas, seguramente, não foi lido pela maioria dos que veem comunismo em toda parte e também dos que não veem comunismo em lugar nenhum. O espectro (fantasma) que ronda a Europa, portanto, como ideia, fumaça, metafísica está na cabeça dos que o temem. Pois o comunismo enquanto tal está na carne e na mente de cada um(a) que indigna com a injustiça, com a opressão e com ex


ploração dos indivíduos. Enquanto houver classe trabalhadora haverá o fantasma comunismo, não como um fantasma que paira sobre a cabeça do proletariado, mas como a necessidade de sobreviver (estar vivo para fazer história) e de se efetivar no mundo enquanto ser social (inteiro, livre, em toda sua potência).


Vamos colocar as coisas no lugar. Quando a direita diz que todo mundo é comunista, ela está acusando a pancada, isto é, demonstra que uma ação lhe provocou raiva, medo, atenção. Pouco importa quem lhe desferiu o ataque. Ser comunista, para essa gente que tem medo de fantasma, é a mesma coisa de dizer “não é como eu”. Caetano diz em sua música que “Narciso acha feio o que não é espelho”, por isso que, para o bom egoísta burguês, comunista é o aquele/aquilo que lhe é estranho. A reação é o medo, a violência, o ataque.


Entretanto, o fato de não-igual, não significa necessariamente que os interesses são antagônicos. Por isso chamar alguém de “comunista” pode ser apenas uma forma de “desqualificar” o oponente perante a plenária. Como em uma disputa intracapitalista, por exemplo, por um cargo no centrão, uma eleição, ou uma verba, que pode desencadear o xingamento-mor, como #doriaComunista e afastar seus apoiadores.


Os efeitos do anti-comunismo estão espalhados em todas as esferas da vida social. Nas ruas, na academia, no sindicato, no partido, na clínica médica, nos livros, nos filmes, que promovem uma associação intencional do comunismo com a violência, com a morte e com a fome. Obviamente, sem nunca revelar o que efetivamente é o comunismo. Enquanto a “maior democracia do mundo”, os Estados Unidos, seguem com seus milhares de mortos pela Covid-19, apenas para relatar o caso recente de miséria, violência e morte do grande país capitalista; isso para não mencionar as guerras, o racismo, a xenofobia e porcaria da indústria de entretenimento.


O que muita gente não sabe, e aqui incluo “as esquerdas” do “não precisa ser comunista para isso para aquilo” é que todas as conquistas que a classe trabalhadora arrancou da classe capitalista, por mais reformistas que possam ser, são guiadas pela luta por uma sobrevivência humana diferente e transformada, pois a luta contra a exploração e a opressão são movidas pela coragem de uma classe que existe, uma classe de carne de osso, cuja exploração não é causada por um fantasma. Salário, férias, saúde, educação além do mínimo para trabalhar só existem mediante luta.


A classe trabalhadora não é uma abstração, um conceito, são mulheres e homens que neste momento estão se balançando em um coletivo enquanto redijo esse artigo. Se seu horizonte hoje não ultrapassa a manutenção do emprego é porque estamos sendo tolhidos na nossa ousadia, essa disputa (o tamanho da ousadia) é também luta política. E luta implica em práxis. O comunismo não é um espírito. Não se resume em uma utopia. Não é um ponto de chegada. Não é garantia de sociedade sem problema. O comunismo é se negar a aceitar que desigualdade, fome e opressão são naturais, que basta, portanto, serem reduzidas. Um(a) comunista é alguém que escolheu deliberadamente transformar a sociedade, considerando seus limites e potencialidades, elevar a sociabilidade humana na Terra a um patamar objetivamente e subjetivamente superior. Toda trabalhadora e todo trabalhador é, portanto, um(a) comunista em potencial, pois materializa a exploração de um mundo desumano.


Feitos esses esclarecimentos, falando agora aos(às) comunistas, convém deixar a “paciência do conceito” para os idealistas. Vamos à luta, pois comunismo fantasmagórico é coisa pra quem não leu o Manifesto. Nós comunistas lemos e sabemos que


“Os comunistas repudiam todo e qualquer ocultamento de suas posições e intenções. (...) Que as classes dominantes tremam ante a revolução comunista. Os proletários nada mais têm a perder com ela do que seus grilhões. Têm, sim, um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, unam-se!”.

É essa luta que nos faz comunista, não esse texto.


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